A gastronomia brasileira alcançou um marco histórico em 2026. Pela primeira vez, dois restaurantes do país receberam a terceira estrela Michelin, distinção máxima do guia mais respeitado do mundo na área de restaurantes. Os premiados são o Tuju, do chef Ivan Ralston, e o Evvai, do chef Luiz Filipe Souza, ambos em São Paulo. Nenhum restaurante da América Latina havia conquistado três estrelas antes.
A distinção de três estrelas significa, no vocabulário do Michelin, que o restaurante "vale uma viagem". É o reconhecimento de que a experiência ali oferecida justifica o deslocamento de qualquer parte do mundo. Para o Brasil, a conquista posiciona São Paulo definitivamente no mapa da alta gastronomia global.
O vinho como parte da experiência
Em ambos os restaurantes, a carta de vinhos e a harmonização integram o conceito central da experiência. No Evvai, o menu degustação Oriundi parte de R$ 1.150 por pessoa, com harmonizações de vinho que duplicam ou triplicam esse valor dependendo da seleção. No Tuju, o menu vai de R$ 1.450 a R$ 3.500 com harmonização completa, curada pelo próprio chef com foco em produtores de baixa intervenção e rótulos que expressam terroir brasileiro e internacional.
A presença do vinho nesse nível de gastronomia não é decoração. É linguagem. A harmonização em restaurantes de três estrelas é construída rótulo a rótulo, prato a prato, com o objetivo de criar uma narrativa sensorial coerente ao longo de toda a refeição.
O guia completo: 46 estrelados entre SP e Rio
A edição 2026 do Guia Michelin Rio de Janeiro e São Paulo registra dois restaurantes de três estrelas, três de duas estrelas e 19 de uma estrela. Os dois astros são o Lasai (chef Rafa Costa e Silva) e o Oro (chef Felipe Bronze), no Rio de Janeiro, e o D.O.M. (chef Alex Atala), em São Paulo. No Rio, a edição deste ano trouxe a nova estrela do Madame Olympe, estreia que marcou a evolução da cena carioca.
Três restaurantes receberam a Estrela Verde, que reconhece compromisso com sustentabilidade: A Casa do Porco, Corrutela e Tuju. A novidade desta edição foi o Exceptional Cocktails Award, vencido por Anderson Oliveira, do D.O.M., que marca a entrada do guia no reconhecimento formal de equipes de bar.
O que muda para quem se importa com vinho
A ascensão da gastronomia brasileira ao topo do Michelin tem efeito direto sobre o mercado de vinhos. Restaurantes de alta performance demandam cartas mais sofisticadas, sommeliers mais bem formados e rótulos que poucos distribuidores oferecem. Isso cria pressão positiva sobre a cadeia inteira: importadores buscam produtores diferentes, sommeliers ganham protagonismo, e o consumidor que frequenta esses lugares passa a conhecer e procurar vinhos que não encontraria em uma loja convencional.
No Brasil, onde a cultura enológica ainda está em formação em grande parte do país, a visibilidade que o Michelin dá à harmonização é um vetor de educação e interesse. Cada artigo sobre o menu do Tuju ou do Evvai é, em alguma medida, uma porta de entrada para novos consumidores de vinho.
São Paulo como capital gastronômica da América Latina
Com dois restaurantes de três estrelas, São Paulo passa a disputar com Buenos Aires, Lima e Cidade do México o título de capital gastronômica da região. A diferença agora é que a distinção máxima do guia mais influente do mundo está do lado brasileiro. Para o turismo gastronômico, o impacto pode ser significativo: São Paulo já concentra a maioria dos voos internacionais do país, e a terceira estrela é o tipo de argumento que coloca uma cidade num roteiro de viagem.
