Existe uma frase que circula bastante entre produtores e sommeliers nos últimos anos: "os jovens não estão bebendo menos, estão bebendo melhor." Parece otimismo de quem tem garrafa para vender mas os números dão razão à afirmação.
O mercado brasileiro de vinhos encerrou 2025 com crescimento de 9%, impulsionado não pelo volume, mas pelo valor. O tíquete médio subiu. Rótulos premium ganharam espaço. O consumidor que chegou ao vinho nos últimos cinco anos chegou mais informado, mais seletivo e com menos disposição para abrir uma garrafa só por abrir.
"Beber bem virou parte de um estilo de vida não o oposto dele."
Essa mudança não aconteceu no vácuo. Ela tem nome: bem-estar. A geração que cresceu contando macros, lendo rótulos e seguindo perfis de saúde no Instagram não abandonou o prazer ela o ressignificou. Um bom vinho numa sexta feira com amigos cabe perfeitamente nessa equação. Uma garrafa barata e sem história, bebida por inércia, não cabe mais.
Saúde e Prazer: o fim de uma falsa dicotomia
Durante décadas, a conversa sobre vinho e saúde ficou presa entre dois extremos: de um lado, quem defendia os benefícios do resveratrol com estudos duvidosos; do outro, campanhas de saúde pública que tratavam qualquer dose de álcool como vilã. A nova geração simplesmente ignorou os dois lados e criou seu próprio critério: consciência.
Isso significa beber menos vezes, mas escolher melhor quando beber. Significa conhecer o que está na taça, origem, método de produção, quem fez. Significa pagar mais por um rótulo que conta uma história do que muito por um que não tem nada a dizer. É o mesmo movimento que transformou o mercado de café especial, de azeite extravirgem e de chocolates bean-to-bar: a premiumização pelo conhecimento.
Números que confirmam a virada
- +9% de crescimento do mercado brasileiro de vinhos em 2025
- 26% na fatia de vinhos brancos no Brasil em 2024, ante 20% em 2020
- +31% de crescimento projetado para bebidas sem álcool no mercado global
A Ascensão do Zero
Se o vinho ganhou com essa nova mentalidade, a categoria que mais surpreende é a das bebidas sem álcool e especialmente os vinhos desalcoolizados. Até pouco tempo atrás, eram vistos como produto de nicho, voltado para gestantes ou motoristas. Hoje, são tendência global com crescimento de dois dígitos e presença crescente nas prateleiras de adegas especializadas.
O movimento "sober curious": curiosidade sobre a sobriedade, sem o compromisso da abstinência total ganhou força especialmente entre millennials e a Geração Z. Não é abstinência ideológica, é escolha situacional. Às vezes a pessoa quer o ritual do vinho, a taça, a harmonização, a conversa, mas sem o álcool. E o mercado finalmente começou a entregar isso com qualidade.
O que mudou na produção dos vinhos 0%?
As técnicas de desalcoolização evoluíram muito. Processos como a osmose inversa e a evaporação a vácuo permitem remover o álcool preservando grande parte dos aromas e da estrutura do vinho. O resultado ainda não é idêntico ao original o álcool contribui para textura e corpo mas chegou num patamar que justifica a experiência, especialmente nos espumantes desalcoolizados, que têm crescido fortemente no Brasil.
No Brasil, a Grande Prova Vinhos do Brasil 2026 já incluiu categoria específica para espumantes sem álcool sinal claro de que o segmento saiu do campo da curiosidade para o da legitimidade técnica. Produtores nacionais estão entrando nessa corrida, e não deve demorar para termos rótulos brasileiros competitivos nessa categoria.
O que isso significa para quem ama vinho?
Para o sommelier e para o apaixonado por vinho, esse movimento é uma boa notícia mesmo que pareça contraditório à primeira vista. Um consumidor mais consciente é um consumidor mais curioso. Ele quer entender o que está bebendo, quer conhecer a vinícola, quer saber o que é maceração, o que é terroir, por que um vinho custa mais do que outro.
Essa curiosidade abre espaço para categorias antes ignoradas, os laranjas, os naturais, os Pet-Nat, os desalcoolizados e valoriza o trabalho de quem produz com cuidado e conta sua história com honestidade. O vinho que tem algo a dizer nunca esteve tão bem posicionado quanto agora.
"O futuro do vinho não está em quem bebe mais. Está em quem bebe com intenção."
A taça ficou menor. O que vai dentro dela ficou muito mais interessante.
Ytallo Alves
Sommelier & Colunista de Vinhos, Brasília – DF • Julho de 2026

