A Salton, maior produtora de espumantes do Brasil, tem metas ambiciosas para a linha de produtos sem álcool em 2026: crescer 50% em vendas e chegar a 900 mil garrafas comercializadas. O número representa um avanço expressivo sobre as aproximadamente 600 mil garrafas do ano anterior e consolida a empresa como protagonista de uma categoria que deixou de ser nicho para ocupar prateleiras, cardápios e estratégias corporativas.
A aposta não veio do nada. Em pouco mais de um ano, a companhia criou do zero um portfólio de cinco rótulos gaseificados sem álcool: um moscatel branco, um rosé, um tinto, uma versão de baixa caloria e um blend de uvas com notas de frutas amarelas. Todos passam pelo processo de vinificação convencional antes da etapa de remoção do álcool, preservando aroma e textura.
Reforma tributária como fator de aceleração
O diretor-presidente da empresa, Maurício Salton, é direto ao apontar um dos motores da estratégia: a reforma tributária. O Imposto Seletivo, chamado de "imposto do pecado", vai incidir sobre bebidas alcoólicas e outros produtos considerados prejudiciais à saúde, encarecendo a produção e o preço ao consumidor final.
Para a Salton, que nasceu na Serra Gaúcha com forte tradição em espumantes e sucos de uva, a diversificação para produtos sem álcool é também uma proteção de portfólio. A empresa já possui histórico sólido na produção de suco de uva integral, o que facilita o desenvolvimento técnico de bebidas baseadas em uva sem fermentação alcóolica ou com álcool removido.
Um mercado que o setor todo está de olho
A Salton não está sozinha nessa corrida. Garibaldi e Aurora, duas das maiores cooperativas vinícolas do país, também lançaram versões sem álcool de seus espumantes. O movimento sinaliza que a categoria não é mais uma aposta isolada, mas uma resposta coordenada do setor a uma mudança de comportamento do consumidor.
Jovens que bebem menos, pessoas com restrições médicas ou religiosas e o crescimento da pauta de saúde e bem-estar são os principais vetores dessa demanda. A linha zero álcool da Salton, que hoje representa 2,3% da produção total da empresa, deve ganhar peso progressivamente à medida que a tributação sobre alcoólicos aumenta e o consumidor consciente cresce em número.
O que muda para o consumidor
Para quem está na taça, a diferença está principalmente na textura e no final de boca, onde o álcool cumpria papel de veículo de aroma e calor. As versões desalcoolizadas modernas melhoraram muito nesse aspecto, mas ainda há desafios sensoriais reais que os produtores enfrentam ao remover o álcool de um vinho já pronto.
O preço, por sua vez, tende a se aproximar dos rótulos alcoólicos de entrada, tornando a categoria mais competitiva e acessível. Para o mercado de vinhos, esse movimento é uma oportunidade de ampliar o público consumidor sem canibalizar os rótulos tradicionais.
