Os registros históricos apontam a Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, como o local onde teve início a vitivinicultura no Brasil.
Em 1531 ocorreu o plantio do primeiro vinhedo de Vitis vinifera em território brasileiro, durante a expedição liderada por Martim Afonso de Souza e Brás Cubas com mudas de videiras transportadas de Portugal para a nova colônia. Enviada por determinação do rei de Portugal, Dom João III, a missão tinha como objetivos expulsar os franceses da costa brasileira e promover a efetiva colonização do território.
Guardadas as diferenças históricasm o plantio das primeiras videiras na colônia parece evocar a mesma lógica de ocupação da terra por meio de elemento associado à tradição cristã, quando os Romanos plantavam videiras nas terras conquistadas como forma de afirmar a presença da nova ordem política e religiosa.
Conforme relata o escritor e sommelier José Figueiredo na obra Velho Chico: Vinhos regados de histórias (1. ed., Curaçá-BA: Oxente, 2024), foi nesse contexto que se realizou a introdução das primeiras videiras em solo brasileiro. Embora a iniciativa tenha representado o marco inaugural do cultivo da videira no país, a experiência não prosperou devido às condições climáticas tropicais, desfavoráveis ao desenvolvimento da Vitis vinifera.
Entretanto, esse episódio permanece simbolicamente inscrito na bandeira e no brasão de Itamaracá através dos cachos de uvas, formalizados graficamente, anos depois, pelo pintor holandês Frans Post. Trata-se de símbolo que atravessou os séculos e é mais do que um elemento decorativo é a expressão da identidade cultural do município.
No ano seguinte, em 1532, os dois portugueses navegaram pelo Oceano Atlântico e fundaram a Vila de São Vicente, no litoral de São Paulo, onde tentaram outra vez o cultivo das videiras com as mudas trazidas da ilha de Itamaracá. Novamente, sem sucesso! O clima tropical litorâneo com alta umidade na região, dificultou o cultivo. Em seguida, os portugueses transferiram o mesmo parreiral para o alto da serra paulista no atual bairro de Tatuapé, na cidade de São Paulo.
Esse movimento inicial do cultivo da parreira revela um gesto simbólico de adaptação ao novo território, ainda que os resultados iniciais tenham sido modestos. Estas iniciativas pioneiras lançaram as bases para a longa trajetória da produção de uvas e da elaboração de vinhos no país que viria a se consolidar, ao longo dos séculos, em diferentes regiões e com diversas influências culturais.
Para saber mais leia o artigo completo desta escritora “Le Vin Brésilien-Histoire, transformation et reconnaissance”, na obra L’instant et L’éternité (1.ed., Leiria/Portugal: Mágico de Oz, 2026).

