A Cor que Faltava na Taça
Como o Mayos Orange e o movimento dos vinhos laranjas estão transformando o paladar brasileiro
Por Ytallo Alves, Sommelier de Brasília · Junho de 2026
Quando levanto uma taça de vinho laranja para a luz e vejo aquele âmbar quente e profundo, sinto que estou segurando algo que desafia séculos de convenção. Não é branco, não é tinto, não é rosé. É outra coisa, e é exatamente isso que fascina. O Mayos Orange, elaborado pela Vinícola Basso, em Farroupilha, na Serra Gaúcha, é hoje um dos melhores exemplos de como o Brasil está aprendendo a escrever sua própria história no universo dos vinhos de baixa intervenção.
Uma Família, Quatro Gerações e um Terroir de Herança
A história da Vinícola Basso começa muito antes de qualquer rótulo existir. No final do século XIX, Vitório Basso partiu da Itália em direção ao Brasil, carregando esperança e algumas mudas de videiras. Ele se instalou no que chamavam de Mato Perso, território que hoje integra o município de Flores da Cunha, e começou a produzir vinho, uma tradição que seria cultivada com afinco por seus descendentes por gerações.
Décadas depois, por volta de 1940, Hermindo Basso fundou a primeira vinícola formal da família, então chamada de Cantina Rural. Com o tempo, essa cantina se transformaria na Basso Vinhos e Espumantes, sediada em Monte Bérico, no 2º Distrito de Farroupilha, cidade que, não por acaso, é considerada o berço da imigração italiana no Rio Grande do Sul e a Capital Nacional do Moscatel.
"Mais de 80 anos de história, inovação e espírito precursor na elaboração de vinhos e espumantes, tudo nascido das mesmas mãos que um dia trouxeram videiras da Itália."
Hoje, a Basso trabalha com uma área construída de 10 mil metros quadrados, possui pequenos vinhedos próprios para vinhos especiais e conta com a parceria de mais de 200 famílias que cuidam de cerca de 800 hectares de parreirais na Serra Gaúcha. Farroupilha abriga também a maior área de produção de uvas moscatéis do Brasil, e o perfil genético do Moscato Branco cultivado ali foi identificado como único no mundo, rendendo à cidade uma Indicação Geográfica própria.
É desse solo rico, dessa tradição centenária e desse espírito de quem não tem medo de inovar que nasce a linha Mayos e, dentro dela, o Orange.
Mayos Orange: Âmbar, Moscato e Coragem
O vinho laranja é, talvez, o estilo mais antigo e, ao mesmo tempo, o mais incompreendido do mundo. A técnica de macerar uvas brancas com suas cascas durante a fermentação remonta a mais de 8.000 anos na região da Geórgia, atual Europa Oriental. Ela praticamente desapareceu com a modernização da viticultura e ressurgiu nas últimas décadas como símbolo do movimento natural, da baixa intervenção e da busca por sabores que contam histórias.
O Mayos Orange traduz esse espírito com uma proposta muito específica: usa 100% de uva Moscato, casta de enorme identidade aromática, e submete o mosto a um período de maceração com as cascas. O resultado é um vinho que não poderia vir de nenhum outro lugar.
Ficha Técnica, Mayos Orange 2024
- Produtor: Vinícola Basso
- Região: Farroupilha, Serra Gaúcha, RS, Brasil
- Uva: 100% Moscato Branco
- Tipo: Vinho laranja
- Teor alcoólico: 11,0%
- Temperatura de serviço: 10°C a 12°C
- Maturação: Sem passagem por barrica
- Visual: Cor âmbar intensa, levemente dourada e inconfundível
- Aromas: Favo de mel, flores secas, erva doce, frutas cítricas e de caroço, nuances de especiarias
- Paladar: Boa intensidade e complexidade, tanicidade sutil e aveludada, mineralidade no final e muita personalidade
Na taça, o Mayos Orange surpreende em camadas. A cor âmbar, resultado do contato prolongado com as cascas, já anuncia que você está diante de algo diferente. No nariz, o Moscato não se esconde: há notas expressivas de favo de mel, flores secas e erva doce, acompanhadas de frutas cítricas e sutis especiarias. Na boca, vem o que distingue um laranja de qualidade de um branco qualquer: textura. Aquela tanicidade sutil e aveludada, impossível em um branco tradicional sem contato com casca, dá estrutura ao vinho sem apagar sua acidez fresca. O final é mineral, longo e cheio de personalidade.
A Arte da Maceração
No processo do vinho laranja, as uvas brancas fermentam em contato com suas próprias cascas, exatamente como acontece nos vinhos tintos. Esse contato extrai taninos, cor e compostos aromáticos que normalmente seriam descartados. No Mayos Orange, elaborado com Moscato, esse processo transforma o perfume característico e delicado da uva em algo mais encorpado, complexo e gastronômico. É técnica antiga com resultado surpreendentemente contemporâneo.
A harmonização do Mayos Orange acompanha essa versatilidade gastronômica. Ele vai bem com pratos do mar encorpados, como moqueca, bobó de camarão e peixes defumados, mas também com risotos, aves, queijos de média intensidade e culinária asiática, especialmente pratos com gengibre e especiarias. É um vinho que convida à mesa longa e à conversa.
Premiação
🏆 Grande Prova Vinhos do Brasil 2026
O Mayos Orange Safra 2024 foi eleito o melhor vinho laranja do Brasil na maior degustação às cegas de rótulos nacionais, avaliando 1.291 amostras de 10 estados em sua 11ª edição.
Não é pouca coisa. A Grande Prova Vinhos do Brasil reúne sommeliers e especialistas certificados por instituições como a Associação Brasileira de Sommeliers, a Wine & Spirit Education Trust e o Court of Master Sommeliers. Ganhar nesse cenário, às cegas, contra rótulos de todo o país, é o tipo de reconhecimento que vai além do marketing. É validação técnica.
O Paladar Brasileiro Está Mudando e os Laranjas Chegam na Hora Certa
Para entender por que um vinho como o Mayos Orange encontrou terreno fértil no Brasil, é preciso olhar para o movimento mais amplo do mercado. O setor brasileiro de vinhos encerrou 2025 com faturamento estimado em R$ 21,1 bilhões, crescimento de aproximadamente 9% em relação ao ano anterior. No primeiro trimestre de 2025, foram comercializados 82,5 milhões de litros, alta de 7% sobre o mesmo período de 2024.
Mas o número mais revelador não é o volume: é o comportamento. O crescimento tem sido impulsionado principalmente por rótulos de maior valor agregado. O consumidor brasileiro está bebendo menos, porém com mais critério. Está buscando história, método e origem, e está disposto a experimentar estilos que antes causariam estranhamento.
"O consumidor atual demonstra maior exigência em relação à qualidade. A educação sobre vinhos é um fator determinante para converter esse interesse em fidelização."
É nesse contexto que os vinhos laranjas, naturais e de baixa intervenção entram em cena. Especialistas do setor apontam essa categoria como uma das tendências mais consistentes dos últimos anos, ao lado dos espumantes e dos brancos frescos. O movimento é global, mas no Brasil ganhou força adicional pelo perfil do novo consumidor: mais jovem, mais informado, formado pelo Instagram e pelos clubes de vinho, e muito menos apegado às categorias tradicionais.
Os dados de vinhos brancos confirmam o fenômeno. A categoria saiu de 20% do mercado brasileiro em 2020 para 26% em 2024, crescimento de seis pontos percentuais em quatro anos. O laranja entra como a expressão mais radical e interessante desse movimento: é um branco, mas com textura de tinto, cor de mel e personalidade própria. Para quem está explorando esse novo mundo, é uma porta de entrada fascinante.
Os vinhos laranja são esteticamente impactantes. A cor âmbar já cria curiosidade antes do primeiro gole. Eles têm complexidade e textura que surpreendem quem está acostumado apenas com brancos leves. São fotogênicos, têm história para contar e harmonizam com a gastronomia contemporânea e com a culinária asiática, em franca expansão no Brasil. Para uma geração que valoriza autenticidade e experiência acima de tudo, dificilmente haveria rótulo mais adequado.
O Brasil que Inova a Partir da Tradição
Existe algo profundamente bonito no fato de que um vinho como o Mayos Orange venha justamente de Farroupilha, cidade fundada por imigrantes italianos no século XIX, que chegaram ao Brasil com videiras debaixo do braço e transformaram aquele solo em um dos mais importantes terroirs do hemisfério sul. A Família Basso é parte direta dessa herança: de Vitório Basso, na Itália, ao Mayos Orange 2024, são mais de um século de dedicação ao vinho.
Quando a Basso decide criar um vinho laranja a partir do Moscato, não está apenas seguindo uma tendência internacional. Está ressignificando sua própria tradição. Está usando a uva mais emblemática de seu território, a que rendeu à cidade o título de Capital Nacional do Moscatel, e submetendo a casta a uma técnica ancestral para criar algo genuinamente novo. Isso é o que as melhores vinícolas do mundo fazem: olham para trás para poder avançar com mais confiança.
Para quem ainda não provou um vinho laranja, o Mayos Orange é a porta de entrada ideal. Não é agressivo nem extremo. É um laranja de convite, que preserva a identidade aromática do Moscato enquanto acrescenta textura, cor e uma complexidade que vai evoluindo na taça. Para quem já conhece o estilo, é a prova de que a Serra Gaúcha chegou ao nível das melhores regiões produtoras de orange wine do mundo.
"O laranja não é uma moda passageira. É a expressão mais honesta de um vinho que não teme sua própria natureza."
Quando levanto essa taça âmbar e vejo a luz atravessá-la, penso nas videiras trazidas da Itália, nas mãos que as plantaram, nas gerações que as cuidaram e nos enólogos que tiveram coragem de fazer diferente. Tudo isso cabe em 750 ml. E isso, para mim, é o que um grande vinho faz: conta uma história que vale ser descoberta, gole a gole.
Ytallo Alves, Sommelier & Colunista de Vinhos, Brasília, DF · Junho de 2026

