Borgonha é, para muitos especialistas, a região mais fascinante do vinho no mundo. Não pela produção em volume, que é pequena, mas pela profundidade do conceito de terroir que a região encarna: cada parcela de vinhedo (chamada "climat") tem uma identidade própria e distinta que se reflete no vinho com uma precisão que nenhum outro território do mundo consegue replicar de forma tão sistemática.
O conceito de terroir na Borgonha
O terroir da Borgonha é o calcário jurássico: solos de calcário de diferentes composições que variam minimamente de parcela para parcela, criando microclimas e químicas do solo completamente distintos. Um vinhedo ao lado do outro pode produzir vinhos tão diferentes quanto um Chianti e um Brunello. Os monges cistercienses da Idade Média foram os primeiros a mapear essas diferenças, criando o sistema de classificação dos crus (climats) que ainda é seguido hoje. Em 2015, os climats da Borgonha foram reconhecidos como Patrimônio Cultural Imaterial pela UNESCO.
A Côte de Nuits: o templo do Pinot Noir
A Côte de Nuits é a parte norte da Côte d'Or e é o território mais valorizado do Pinot Noir no mundo. Aqui ficam os grandes crus mais famosos: Chambertin, Musigny, Clos de Vougeot, Richebourg, La Tâche e a lendária Romanée-Conti, o vinho mais caro do mundo em qualquer safra. Os villages de Gevrey-Chambertin, Chambolle-Musigny, Vosne-Romanée e Nuits-Saint-Georges concentram a maior quantidade de grands e premiers crus da região. Domaines como Domaine de la Romanée-Conti, Leroy, Mugnier, Rousseau e Ponsot são as mais reverenciadas.
A Côte de Beaune: Chardonnay em seu ápice
A Côte de Beaune, ao sul da Côte de Nuits, é o território do Chardonnay mais refinado do mundo. Meursault, Puligny-Montrachet e Chassagne-Montrachet são os villages mais famosos, com grands crus como Montrachet (o branco mais caro do mundo), Bâtard-Montrachet, Chevalier-Montrachet e Corton-Charlemagne. Os melhores Chardonnays da Côte de Beaune, de produtores como Comtes Lafon, Leflaive, Ramonet e Colin-Morey, são vinhos de complexidade mineral e longevidade extraordinárias.
O sistema de classificação
A Borgonha tem um sistema de classificação em quatro níveis: Grand Cru (o mais alto, cerca de 2% do vinho de Borgonha), Premier Cru, Village e Regional (Bourgogne). Dentro de cada nível, a diferença de preço pode ser enorme: um Bourgogne regional pode custar 30 reais, um grand cru da mesma denominação pode custar 30.000. Entender esse sistema é o primeiro passo para navegar a Borgonha sem se perder.
Mâconnais e Beaujolais: a Borgonha acessível
Ao sul da Côte d'Or, o Mâconnais produz Chardonnay de preço muito mais acessível com boa qualidade (Mâcon Villages, Pouilly-Fuissé). O Beaujolais, com sua uva Gamay, produz o famoso Beaujolais Nouveau (lançado em novembro a cada ano) e os dez crus do Beaujolais (como Morgon, Moulin-à-Vent e Fleurie), que podem ter qualidade e profundidade bem maiores do que o Nouveau sugere.
Harmonização
Chardonnay da Côte de Beaune: peixe ao molho beurre blanc, frango de Bresse assado, lagostins, saint-jacques (vieiras), truta de rio. Pinot Noir da Côte de Nuits: pato assado, pombo, perdiz, coelho ao vinho, risoto com cogumelos selvagens. Grands crus da Borgonha pedem pratos de igual nobreza e elegância: trufa branca com ovos, pato com cereja, lombo de javali. A Borgonha é a região que mais exige atenção ao que está na mesa.
A Borgonha é um estudo de vida inteira. Cada garrafa é um sistema solar a explorar: um village, um climat, um produtor, uma safra. É por isso que ela cria os mais apaixonados colecionadores e os mais exigentes críticos do mundo do vinho.