Chardonnay é, sem dúvida, a uva branca mais plantada e mais consumida do mundo. Essa versatilidade quase ilimitada, que permite produzir do branco mais leve e mineral ao mais encorpado e amanteigado, fez da Chardonnay a uva onipresente em qualquer lista de vinhos do mundo. Mas essa popularidade também teve um lado negativo: durante os anos 1990 e 2000, a Chardonnay com excesso de carvalho tornou-se um clichê que gerou um movimento de rejeição chamado ABC (Anything But Chardonnay). Hoje, a uva se reinventou.
Origem: Borgonha e seu destino histórico
A Chardonnay tem origem na Borgonha francesa, provavelmente no vilarejo de Chardonnay, na Mâconnais. É filha genética de Pinot Noir e Gouais Blanc, o que explica sua afinidade histórica com o terroir borguinhão. Na Côte de Beaune, os grandes brancos de Puligny-Montrachet, Chassagne-Montrachet, Meursault e Corton-Charlemagne são produzidos integralmente com Chardonnay e representam o mais alto nível de vinho branco seco do mundo. Esses vinhos, secos, minerais e com possível envelhecimento de 15 a 30 anos, são o padrão ouro da uva.
Chablis: Chardonnay sem madeira
Em Chablis, subregião da Borgonha ao norte, a Chardonnay é vinificada majoritariamente sem passagem por barrica de carvalho, resultando em vinhos de cor palha-esverdeada, com aromas de limão, maçã verde, sílex (pederneira, uma nota mineral típica de Chablis), e salinidade que evoca ostras. Os Grand Crus de Chablis (Vaudésir, Valmur, Les Clos, Blanchot, Grenouilles, Preuses e Bougros) são brancos de grande longevidade e de um perfil completamente diferente dos Meursault e Puligny de madeira.
Califórnia: a Chardonnay encorpada que mudou tudo
Na Califórnia, especialmente em Napa, Sonoma e Central Coast, a Chardonnay encontrou um estilo próprio: fermentação e envelhecimento em barrica de carvalho, fermentação malolática completa (que converte ácido málico em ácido lático mais suave, dando textura cremosa) e uma fruta tropical exuberante de pêssego, abacaxi e manga. Foi esse estilo californiano que conquistou o mundo nos anos 1990 mas que também gerou o movimento ABC. Hoje, muitos produtores californianos estão voltando a estilos mais sóbrios e minerais, inspirados pela Borgonha.
Chardonnay em Champagne
A Chardonnay é uma das três uvas permitidas no Champagne (junto com Pinot Noir e Pinot Meunier). Champagne Blanc de Blancs, feito inteiramente de Chardonnay, é um dos estilos mais elegantes e ágeis de Champagne, com aromas de limão, brioche e torrada que evoluem magnificamente com o tempo na garrafa. Produtores como Salon, Krug Clos du Mesnil, Guy Charlemagne e Pierre Péters definem o que pode ser o Blanc de Blancs de alta qualidade.
Chardonnay no Brasil
No Brasil, a Chardonnay é cultivada com resultados crescentes em diversidade de estilos. Na Serra Gaúcha, brancos frescos e de corpo médio. Em São Joaquim (SC), altitude e frescor produzem Chardonnay mais mineral e elegante. No Vale do São Francisco, Chardonnay de fruta tropical intensa. Algumas etiquetas da Serra Gaúcha e de São Joaquim têm sido reconhecidas em competições internacionais, mostrando que o Brasil tem potencial real para grandes Chardonnays.
Harmonização
Chardonnay sem madeira (estilo Chablis): ostras, frutos do mar, peixe grelhado simples, sushi. Chardonnay com madeira (estilo Borgonha): frango assado com ervas, peixe ao molho de manteiga, lagosta, creme de cogumelos, risoto. Chardonnay muito encorpado (estilo californiano): macarrão de queijo, frango com creme, lagosta na manteiga, pratos ricos e gordurosos. A Chardonnay, como a uva neutra que é, segue e amplifica o ingrediente ao lado, tornando-a a parceira mais adaptável de qualquer mesa.
A Chardonnay não é moda. É uma uva de caráter que em cada lugar do mundo conta uma história completamente diferente, do mais mineral e austero ao mais exuberante e encorpado. Conhecê-la em todos os seus estilos é uma jornada que não termina.