Grenache (Garnacha em espanhol) é a segunda uva tinta mais plantada do mundo, mas talvez seja a menos reconhecida pelo público leigo por sua raridade como varietal de destaque. Isso é injusto com uma uva que produz desde os melhores rosés de Provence até os tintos mais concentrados do Priorat catalão, passando pelos blends majestosos do Châteauneuf-du-Pape. Grenache é um dos grandes personagens do mundo do vinho.
Origem espanhola, glória francesa
Grenache tem origem na Espanha, especificamente na região de Aragón, onde é chamada Garnacha. É a uva tinta mais cultivada de toda a Espanha, presente em todas as regiões do país. Na França, chegou através do Roussillon (o sul francês de língua catalã) e se expandiu pelo Languedoc e pelo Vale do Ródano Sul, onde se tornou a espinha dorsal do famoso blend do Châteauneuf-du-Pape.
Châteauneuf-du-Pape: o blend mais famoso
O Châteauneuf-du-Pape AOC, na margem direita do Ródano ao sul, é o terroir mais famoso do Grenache. Aqui, o blend típico contém Grenache (geralmente 60 a 80%), complementado por Syrah, Mourvèdre, Cinsault e uma série de outras uvas. Os grandes produtores como Château Rayas (que faz um Châteauneuf praticamente 100% Grenache), Château de Beaucastel, Château Fortia e Henri Bonneau produzem vinhos de longa vida e de complexidade profunda, com notas de fruta vermelha, especiaria, alcaçuz e uma elegância mineral muito específica dos solos com galets (calhaus arredondados que retêm o calor do sol).
Priorat: Grenache de concentração extrema
No Priorat, região catalã de solos de ardósia vinosa (llicorella), o Grenache (Garnatxa local) produz os tintos mais concentrados e mais caros da Espanha. A viticultura heroica nestas encostas íngremes, com baixíssimas produções por hectare e vinhas de mais de 100 anos, gera vinhos de cor quase opaca, aromas de fruta negra, mineral e especiaria intensa, com alta graduação alcoólica (muitas vezes 15-16%). Produtores como Álvaro Palacios (com L'Ermita e Finca Dofí), Clos i Terrasses, Clos Erasmus e Mas Doix são referências internacionais.
Provence: o rosé mais famoso do mundo
Em Provence, no sul da França, o Grenache é o ingrediente principal dos rosés mais famosos do mundo. Os rosés de Provence, de cor palha-rosada muito pálida (quase "olho de perdiz"), secos e aromáticos com notas de morangos, cítrico e herbes de Provence, são hoje os rosés mais vendidos do mundo. Produtores como Domaines Ott, Château Miraval (do ator Brad Pitt) e Château d'Esclans (com seu Garrus, um rosé premium de carvalho) definiram o estilo do rosé de Provence.
Austrália: Grenache como vinhedo velho
No Barossa Valley australiano, existem alguns dos vinhedos de Grenache mais velhos do mundo, com parreiras centenárias que não foram arrancadas durante as crises filoxéricas. Produtores como Cirillo Wines e d'Arenberg produzem Grenache de concentração extraordinária dessas vinhas velhas, vinhos que rivalizam com os melhores do Mediterrâneo em qualidade e singularidade.
Harmonização
Grenache é uma uva de alta versatilidade gastronômica por seu caráter de fruta vermelha madura e baixa acidez. Para o Grenache tinto encorpado: cordeiro assado, carne de vitela com ervas, javali, picanha grelhada, queijos curados. Para o rosé de Provence: salada niçoise, ratatouille, grelhados de verão, frutos do mar ligeiros, tapenade e patê de azeitona. Para o Grenache em blends do Ródano, os pratos do sul da França: dourada provençal, bouillabaisse (caldo de peixe provençal), cassoulet. Grenache é o vinho do Mediterrâneo, e os pratos mediterrâneos são seus melhores parceiros.
Grenache é a uva da generosidade, do sol e do prazer imediato. Menos austero do que o Nebbiolo, menos modal do que a Syrah, ela oferece um estilo de vinho que convida à festa, ao sul e ao sabor de viver bem.