Mencía é uma uva que passou décadas esquecida e que nas últimas duas décadas voltou com toda a força ao cenário do vinho espanhol. Cultivada principalmente na Galícia (noroeste da Espanha, especificamente nas subregiões do Bierzo e da Ribeira Sacra) e no norte de Portugal, ela produz tintos de frescor, elegância e aromaticidade floral que surpreenderam o mundo vinícola moderno.
O Bierzo: onde Mencía brilhou primeiro
Bierzo é a DO ao noroeste de Castela e Leão, nos vales de encosta próximos à fronteira com a Galícia. Aqui, o Mencía em solos de ardósia (como o Priorat) produz tintos de aromas de framboesa, cereja, violeta e mineral com taninos suaves e acidez vivaz que lembram um Pinot Noir do Novo Mundo. Quando o produtor Álvaro Palacios (já famoso pelo L'Ermita do Priorat) e seu sobrinho Ricardo Pérez Palacios lançaram a Bodega Descendientes de J. Palacios em Bierzo nos anos 2000, foi que o mundo voltou os olhos para a região. Seus vinhos Corullón e La Faraona (de vinhas velhas de Mencía) tornaram-se referências internacionais.
Ribeira Sacra: Mencía nas encostas do Minho
Ribeira Sacra é uma DO da Galícia formada pelos vales dos rios Minho e Sil, com encostas íngremes de ardósia (parecendo um mini-Douro galego) onde o Mencía é cultivado em viticultura heroica. Os vinhos de Ribeira Sacra tendem a ser mais leves e minerais do que os do Bierzo, com mais acidez e menos fruta, lembrando muito o Pinot Noir de Borgonha em estrutura. Produtores como Regina Viarum, Dominio do Bibei e Algueira são referências da denominação.
Características da uva
Mencía tem casca média a fina, maturação precoce e alta sensibilidade ao calor e à seca. Seus aromas característicos são framboesa fresca, cereja, violeta, pimenta preta e uma nota floral delicada. Os taninos são suaves a médios, a acidez é vivaz e o álcool moderado (12 a 13,5%), criando um vinho de enorme bebibilidade e versatilidade. A Mencía, como o Pinot Noir, é mais sensível ao terroir do que muitas outras uvas: em vinhedos de ardósia e altitude, ela produz vinhos de mineralidade e complexidade; em solos mais férteis e planos, vinhos mais simples e frutados.
Portugal: Mencía no Douro
Em Portugal, uvas muito similares à Mencía estão presentes nas regiões vinhateiras mais frias do norte do país, contribuindo com frescor e aroma floral para os blends mais elegantes do Douro. A ampelografia portuguesa ainda está classificando a presença exata dessas variedades nos vinhedos do Norte do país.
Harmonização
Mencía é uma das uvas tintas mais versáteis da culinária espanhola: empanada gallega (de peixe, carne ou mariscos), pulpo a la gallega (polvo galego com pimentão e azeite), percebes (cracas), ameijoas (com vinho e alho), pimiento de Padrón frito. A leveza dos taninos e a acidez fresca do Mencía permitem acompanhar pratos de frutos do mar que os tintos mais tânicos (Tempranillo, Cabernet) destruiriam. Para expressões mais encorpadas como o Corullón de Bierzo, cordeiro assado e cozidos ibéricos são escolhas mais adequadas.
Mencía é a prova de que a Espanha vinícola tem muito mais do que Tempranillo e Garnacha para oferecer. Uma uva indígena esquecida que encontrou novos apreciadores pelo mundo e que continua revelando novos territórios de expressão a cada ano que passa.