Petite Sirah (ou Petite Syrah, com ortografia alternativa) é um dos nomes mais confusos do mundo do vinho americano. Não é uma versão menor do Syrah nem tem parentesco direto com ele. É na verdade uma uva chamada Durif, fruto de um cruzamento realizado pelo botânico francês François Durif em 1860 entre Peloursin e Syrah na França. O nome Petite Sirah foi adotado nos Estados Unidos no final do século XIX, criando uma identidade americana para uma uva de origem francesa.
Califórnia: o lar do Petite Sirah
A Petite Sirah encontrou na Califórnia o seu território de expressão. Com o clima quente do Central Valley e de regiões como Paso Robles, Lodi e Dry Creek Valley, ela amadurece com facilidade e produz uvas de cor profundíssima (um dos vinhos mais pigmentados do mundo, com cor quase preta), taninos muito potentes e aromas de mirtilo, pimenta preta, café e chocolate amargo. É uma uva de caráter indômito, que exige vinificação cuidadosa para não ficar austera demais e que, em mão de bons produtores, cria vinhos de longa vida.
Papel nos blends americanos
Muito mais do que como varietal, a Petite Sirah historicamente era usada como componente de blends de Zinfandel, Barbera e outros tintos californianos. Sua cor intensa, seus taninos estruturantes e sua capacidade de adicionar longevidade a blends mais frutados fazem dela um corretivo natural nos blends de uvas mais suaves. Algumas das melhores expressões de Petite Sirah no mercado americano são, por isso, os "field blends" de vinhas velhas onde a uva cresce misturada com Zinfandel, Carignan e outras variedades históricas da Califórnia.
Os produtores de Petite Sirah varietal
Produtores como Turley Wine Cellars (o mais famoso, com Petite Sirah de vinhas velhas de Napa e Paso Robles), Stags' Leap Winery, Bogle Vineyards (o mais acessível e popular), Parducci, David Bruce e Foppiano estão entre os que definiram o Petite Sirah varietal californiano. O PSI (Petite Sirah I love you) é um grupo de produtores dedicado a promover a uva, que organizou um movimento de valorização da variedade nos anos 2000.
Longevidade e envelhecimento
Petite Sirah é uma das uvas tintas de maior potencial de envelhecimento no Novo Mundo. Seus taninos potentes e sua acidez moderada criam vinhos que podem desenvolver-se por 15 a 25 anos ou mais nas melhores versões. Com o tempo, os taninos se integram e os aromas de carne defumada, especiaria e mineral emergem de forma muito prazerosa. Abrir uma Petite Sirah de 15 anos bem guardada é uma revelação para quem só a conhece jovem e áspera.
Harmonização
Petite Sirah, com seus taninos possantes e cor intensa, precisa de proteína e gordura em quantidade: costeleta de boi na brasa, prime rib, cordeiro assado com alho e alecrim, javali estufado. Queijo azul como Roquefort ou Gorgonzola também funciona surpreendentemente bem com os taninos do Petite Sirah. Evite frutos do mar, peixes e pratos leves: os taninos potentes vão dominar completamente qualquer delicadeza culinária.
Petite Sirah é para quem gosta de tintos com presença de caráter. Não é um vinho de meias-palavras: é intenso, pigmentado, tânico e apaixonado. Para quem aprecia esse estilo, é um dos mais gratificantes e ignorados do mundo do vinho americano.