Wine News Brasil

Pinot Gris e Pinot Grigio: a mesma uva com identidades opostas

Pinot Gris e Pinot Grigio são a mesma uva com identidades completamente opostas. A versão italiana é leve e neutra; a alsaciana é encorpada e complexa. Conheça as diferenças e quando escolher cada uma.

Pinot Gris na Alsácia, Pinot Grigio na Itália: a mesma uva, dois mundos completamente diferentes de expressão. Enquanto o Pinot Grigio italiano é um dos brancos mais simples e de maior produção no mundo, o Pinot Gris alsaciano é um dos brancos mais complexos e de maior longevidade da viticultura europeia. Entender essa dualidade é fundamental para fazer boas escolhas com esse nome de uva tão presente nos rótulos.

A origem: um mutante do Pinot Noir

Pinot Gris é tecnicamente uma mutação colorida do Pinot Noir: a casca da uva tem uma cor que vai do rosado ao cinza-azulado (gris em francês, grigio em italiano), resultado de uma mutação genética do Pinot Noir que manteve a estrutura mas alterou o pigmento da casca. A cor levemente rosada da casca dá ao vinho branco (feito sem contato com a casca) uma cor mais dourada do que a maioria dos brancos e pode contribuir para a textura e os aromas mais complexos das versões mais tardias.

Pinot Grigio italiano: o branco da acessibilidade

O Pinot Grigio italiano é, em termos de volume, um dos vinhos brancos mais vendidos do mundo. O estilo clássico, dominado pela produção das regiões do Veneto e do Friuli, é de branco leve, neutro, de alta acidez, pouco aroma e corpo magro, feito para ser bebido imediatamente e a temperatura muito gelada. É o vinho da "brancura" máxima: sem complexidade, sem personalidade forte, mas extremamente adaptável a qualquer situação de aperitivo ou refeição leve. Friuli-Venezia Giulia, especialmente o Collio e o Colli Orientali del Friuli, produz Pinot Grigio de maior complexidade e caráter do que o Veneto.

Alto Adige: o Pinot Grigio italiano de mais qualidade

No Alto Adige (Südtirol), a região montanhosa de língua alemã ao norte da Itália, o Pinot Grigio encontra um microclima mais frio e solos mais complexos que permitem maior concentração e aromaticidade. Os Pinot Grigio de produtores como Elena Walch, Tramin, Tiefenbrunner e St. Michael-Eppan revelam um estilo com mais corpo, mais fruta de pêssego e damasco, e mais mineral do que o Veneto. São uma porta de entrada para entender o que a uva pode fazer além do estilo básico.

Pinot Gris alsaciano: a versão nobre

Na Alsácia, o Pinot Gris é vinificado em estilo completamente diferente: com fermentação mais longa, possivelmente com fermentação malolática parcial, e envelhecimento, o Pinot Gris alsaciano tem corpo generoso, textura oleaginosa e aromas de pêssego maduro, fumo, mel e especiaria. Os melhores Grand Crus da Alsácia de Pinot Gris (Hengst, Zinnkoepflé, Brand) envelhecem por 10 a 20 anos e revelam uma complexidade que surpreende quem só conhecia o estilo italiano. Produtores como Zind-Humbrecht, Weinbach, Ostertag e Marcel Deiss fazem os Pinot Gris alsacianos de referência.

Oregon: o Pinot Gris americano

O Oregon, nos EUA, tem adotado o Pinot Gris (usando o nome francês, não o italiano) como sua uva branca mais característica. Os Pinot Gris do Willamette Valley, de produtores como King Estate, Chehalem e Adelsheim, têm um estilo próprio: mais frutado do que o alsaciano, mais encorpado do que o italiano, com notas de pera, pêssego e especiaria que o tornam um dos brancos mais agradáveis do Novo Mundo.

Harmonização

Pinot Grigio italiano leve: aperitivo, camarão al ajillo, carpaccio de peixe, frutti di mare, pizza bianca. Pinot Gris alsaciano: culinária alsaciana (foie gras, choucroute, baeckeoffe, queijo munster), frango ao molho cremoso, salmão ao forno, risoto de porcini. Alto Adige Pinot Grigio: risoto de frutos do mar, dourada grelhada, aspargos brancos. A versatilidade do Pinot Gris/Grigio em suas múltiplas expressões é o seu maior dom: há um estilo para cada momento e cada prato.

Pinot Gris e Pinot Grigio são o mesmo vinho que aprendeu a falar dois idiomas completamente diferentes. O italiano é a língua da acessibilidade; o alsaciano é a língua da profundidade. Ambos têm seu lugar, mas são experiências completamente distintas.

Compartilhar reportagem

X / Twitter Facebook