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Syrah e Shiraz: a mesma uva com dois mundos de diferença

Syrah e Shiraz são a mesma uva com dois estilos completamente distintos. Do Ródano Norte à Austrália, conheça os dois mundos dessa uva extraordinária e suas melhores expressões.

Syrah na França, Shiraz na Austrália e em outras regiões: mesma uva, dois mundos completamente distintos de expressão. Essa dualidade de estilos é um dos fenômenos mais fascinantes da viticultura moderna, e entender ambos os lados é fundamental para apreciar tudo o que essa uva extraordinária tem a oferecer.

Origem: o Vale do Ródano no Norte

O Syrah tem origem no Norte do Vale do Ródano, na França, especificamente nas encostas graníticas de Côte-Rôtie, Hermitage e Crozes-Hermitage. A análise de DNA determinou que é filho de Mondeuse Blanche e Dureza, duas uvas obscuras da região de Savoia. No Norte do Ródano, o Syrah produz vinhos de elevada concentração, com aromas marcantes de pimenta preta, carne defumada, azeitona preta, violeta e especiaria, com taninos firmes e acidez precisa. Os grandes Hermitage (de produtores como Chapoutier, Jaboulet e Chave) envelhecem por décadas e são considerados entre os maiores vinhos do mundo.

O estilo francês: elegância e defumado

Côte-Rôtie, com suas encostas íngremes sobre o Rio Ródano, produz Syrah que muitos consideram o mais elegante do mundo. A regra da Côte-Rôtie permite adicionar até 20% de Viognier, uma uva branca aromática, que confere ao vinho uma nota floral (violeta, peônia) que contrasta com o caráter cárneo e especiado da Syrah. Produtores como E. Guigal (com seus La Mouline, La Turque e La Landonne), René Rostaing e Stéphane Ogier definiram o estilo de Côte-Rôtie: tinto de alta concentração, mas com uma graça e uma leveza que surpreende dado seu poder.

O Shiraz australiano: potência exuberante

Quando a Syrah chegou à Austrália no século XIX (trazida por James Busby), ela encontrou no Barossa Valley e em McLaren Vale um clima quente e seco que a transformou. O Shiraz australiano (como foi rebatizado) é completamente diferente do Syrah francês: mais escuro, mais encorpado, com mais álcool (muitas vezes 14,5 a 15,5%), aromas de ameixa, chocolate amargo, coco (do carvalho americano), alcaçuz e especiaria doce. O Penfolds Grange, produzido desde 1951, é o Shiraz mais famoso do mundo e um dos primeiros vinhos australianos a ganhar reconhecimento global.

Barossa Valley e McLaren Vale

O Barossa Valley é o coração do Shiraz australiano, com vinhedos de vinha velha (muitas com mais de 150 anos) que produzem uvas de concentração extraordinária. O Eden Valley, subregião mais fria dentro do Barossa, produz Shiraz de maior elegância e menor álcool. Em McLaren Vale, mais ao sul e com influência marítima do Golfo de São Vicente, o Shiraz tem mais acidez e aromas de chocolate e azeitona que o diferenciam do Barossa.

Syrah no Novo Mundo além da Austrália

No Chile, o Syrah de Elqui e Limarí, regiões do Norte com influência do Pacífico, produz vinhos de estilo mais francês, com pimenta e mineral, diferente dos Shiraz chilenos mais frutados de Colchagua. Na África do Sul, especialmente em Swartland e Stellenbosch, o Syrah é uma das uvas de maior crescimento, com um estilo próximo ao Ródano. No Brasil, o Syrah tem bom desempenho no Vale do São Francisco (Pernambuco/Bahia), onde o clima tropical produz Syrahs de fruta exuberante e estrutura mais suave.

Harmonização

O Syrah estilo Ródano, com seus aromas de pimenta e ervas, vai muito bem com cordeiro assado com ervas do Mediterrâneo, pato, costelas de porco defumadas e queijos curados. O Shiraz australiano, mais poderoso, pede proteínas mais robustas: bife de chorizo, cordeiro na brasa, carnes com temperos agressivos e até pratos de barbecue americano. A dualidade da uva se reflete na harmonização: dois mundos, duas mesas completamente diferentes.

Syrah e Shiraz são a prova de que o terroir e a vinificação podem transformar completamente o caráter de uma uva. Experimentar ambos os estilos é obrigatório para qualquer amante sério de vinho.

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