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Tannat: do Sudoeste da França ao coração do Uruguay

Tannat é a uva mais tânica do mundo e o orgulho do vinho uruguaio. Nascida no Sudoeste da França, ela encontrou no Uruguai sua mais plena expressão. Conheça essa uva de caráter inconfundível.

Tannat é uma uva que não passa despercebida: seus taninos intensos, quase agressivos em sua juventude, e sua cor profunda e opaca fazem dela um dos vinhos mais identificáveis do mundo. Originária do Sudoeste da França, especificamente de Madiran, ela encontrou no Uruguai um terroir e um público que a tornaram o símbolo do vinho sul-americano mais singular. Hoje, o Tannat uruguaio é um dos vinhos mais reconhecidos da América do Sul nos mercados internacionais.

Madiran: a origem tânica

Madiran é uma pequena AOC no Sudoeste da França, perto de Pau e dos Pirenéus. Aqui, o Tannat é a uva principal de blends que podem ser de dureza impressionante na juventude: taninos de grão grosso, alta acidez e cor intensa criam um vinho que precisa de anos para se abrir. Os grandes produtores de Madiran, como Château Montus (de Alain Brumont, que reinventou a AOC nos anos 1980), Château d'Aydie e Domaine Berthoumieu, produzem vinhos de grande qualidade que eventualmente se revelam complexos e muito harmônicos.

Uruguai: o novo lar do Tannat

O Tannat chegou ao Uruguai no final do século XIX, trazido por imigrantes bascos e gascões que fugiram da filoxera europeia. No clima mais ameno e úmido do Uruguai, com influência do Rio da Prata e do Atlântico, o Tannat amadureceu de forma diferente: menos tânico do que em Madiran (as chuvas maiores criam uvas um pouco menos concentradas), mais frutado e de acidez mais suave, mas ainda com o caráter encorpado da uva. Essa adaptação criou um estilo uruguaio próprio que o mundo passou a reconhecer.

Juanicó e Canelones: coração do Tannat uruguaio

A região de Juanicó e Canelones, ao norte de Montevidéu, é o principal polo do vinho uruguaio. Vinícolas como Bodega Garzón (no departamento de Maldonado, pioneira na viticultura de altitude e terroir), Juanicó, Pizzorno, De Lucca e Los Cerros de San Juan produzem Tannats uruguaios de qualidade crescente, com alguns exemplares de alto nível que competem com os melhores da América do Sul.

Benefícios para a saúde

O Tannat ganhou notoriedade no Brasil e no mundo quando pesquisas apontaram que o Madiran é o vinho com maior concentração de proantocianidinas (um tipo de polifenol) do mundo, associadas à saúde cardiovascular. O relatório MONICA da OMS chamou a atenção para o fenômeno denominado "paradoxo gascão": a população do Sudoeste da França, que consome Tannat de Madiran regularmente, tem uma das menores taxas de doenças cardiovasculares da Europa, apesar de uma dieta rica em gordura animal. Esse dado de saúde impulsionou o interesse global pelo Tannat.

Tannat no Brasil

No Brasil, o Tannat começa a se estabelecer, especialmente na Campanha Gaúcha, onde o clima mais quente e seco favorece sua maturação e suaviza os taninos. A Campanha tem terroir que lembra o Uruguai, e algumas vinícolas gaúchas já produzem Tannat de qualidade interessante, com potencial de crescimento na medida em que as vinhas envelhecem.

Harmonização

Tannat é uma uva de carnes intensas: costela de boi, churrasco de cordeiro, carne de porco defumada, linguiça colonial. A combinação clássica uruguaia é Tannat com parrillada (churrasco típico) de costela de bovino. No Brasil, Tannat com uma boa costela na brasa de longa duração é uma das mais perfeitas harmonizações do Sul. Com queijos muito curados (Parmesão, Manchego velho) e frios de caráter intenso, o Tannat jovem também funciona bem. Evite frutos do mar, peixes e pratos delicados: os taninos do Tannat irão dominar completamente.

Tannat é a uva da honestidade brutal: ela não tenta agradar com facilidade. Mas para quem tem paciência para descobri-la, ela oferece uma riqueza de sabores e uma estrutura que poucos vinhos do mundo possuem.

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