Toscana é para o vinho italiano o que Bordeaux é para o francês: a região mais famosa, mais estudada e mais reverenciada do país. Com uma diversidade de regiões, uvas e estilos que vai do Chianti cotidiano ao Brunello de reserva de 30 anos, a Toscana encarna a tensão entre tradição e modernidade que define o vinho italiano contemporâneo.
O Sangiovese como espinha dorsal
A Toscana é, acima de tudo, o território do Sangiovese. Essa uva tipicamente italiana, com sua alta acidez, cor média e aromas de cereja, tomate seco e especiaria, é a espinha dorsal de todas as grandes DOCGs toscanas: Chianti Classico, Brunello di Montalcino, Vino Nobile di Montepulciano, Morellino di Scansano e Montecucco. Cada região expressa o Sangiovese de forma diferente, dependendo do solo, do clima e do clone específico plantado.
Chianti Classico: entre Florença e Siena
A área do Chianti Classico DOCG, historicamente delimitada entre Florença e Siena no coração da Toscana, é produzida em solos de galestro (xisto) e alberese (calcário compacto) que dão ao vinho uma mineralidade típica e uma estrutura de acidez-tanino que o torna ideal para acompanhar a mesa italiana. A classificação Gran Selezione, o nível mais alto do Chianti Classico (introduzido em 2014), permite vinhos de vinhedo único envelhecidos por mínimo 2,5 anos que rivalizam com o Brunello em qualidade.
Brunello di Montalcino: o mais longevo de todos
Brunello di Montalcino DOCG, produzida nos arredores de Montalcino ao sul de Siena, é o vinho italiano com maior potencial de envelhecimento. Com o Brunello Grosso (como é chamado o Sangiovese de Montalcino), a vinificação por anos em grandes botti de carvalho e depois em garrafa cria vinhos de extraordinária longevidade: os Riserva de grandes produtores como Biondi-Santi, Il Marroneto e Poggio di Sotto podem envelhecer por 50 anos ou mais sem perder o frescor.
Bolgheri e os Super Toscanos
A costa toscana, especificamente a DOC Bolgheri, é o território dos chamados Super Toscanos: vinhos feitos fora das normas tradicionais DOC, com uvas internacionais como Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah, sozinhas ou em blends com Sangiovese. O Sassicaia, o pioneiro (criado por Mario Incisa della Rocchetta nos anos 1940 e comercializado a partir de 1968), o Ornellaia e o Masseto são os nomes mais famosos e caros de Bolgheri, com garrafas que chegam a centenas de euros. Eles demonstraram que a Toscana podia produzir vinhos de estilo internacional sem abrir mão da alma italiana.
Maremma: o horizonte em crescimento
A Maremma toscana, a costa ao sul de Bolgheri, é a região de crescimento mais rápido da Toscana. Aqui, o Sangiovese (como Morellino di Scansano), Vermentino, Syrah e blends de uvas internacionais produzem vinhos de acesso mais fácil e muito boa qualidade. Produtores como Erik Banti, Moris Farms, La Pupille e Ampeleia são referências de uma região que ainda tem muito a revelar.
Harmonização
Chianti Classico: bistecca alla fiorentina, pappardelle com cinghiale, ribollita (sopa toscana), pecorino di Pienza. Brunello di Montalcino: cinghiale com pappardelle, lepre in salmì, lombo de javali, trufa branca. Super Toscanos: carnes assadas mais internacionais, bife grelhado, blends com cordeiro. Bolgheri Vermentino (branco): antipasto de frutos do mar, branzino grelhado, camarões ao limão. A Toscana em cada taça é uma parte da mesa italiana mais completa e generosa.
Toscana é a síntese do vinho italiano: enraizada na história, aberta ao mundo, diversa em expressão e sempre com Sangiovese no coração. Nenhuma viagem ao mundo do vinho está completa sem passar por ela.