O Brasil tem um tesouro vitícola que a maioria dos brasileiros desconhece: variedades de uva que são únicas neste país ou que existem em quantidades mínimas no resto do mundo. Entre as uvas trazidas pelos colonizadores europeus que se adaptaram ao clima brasileiro ao longo de séculos e as poucas variedades indígenas americanas que ainda persistem, o Brasil tem um patrimônio genético vitivinícola que começa a ser descoberto e valorizado pelos produtores mais atentos.
Goethe: a uva do Vale do Rio Urussanga
A Goethe é uma uva híbrida (cruzamento de Vitis vinifera com Vitis labrusca ou outra espécie americana) que se tornou única em Urussanga, no Sul de Santa Catarina. Trazida por imigrantes italianos e selecionada ao longo de décadas de cultivo no clima catarinense, ela criou uma identidade própria: vinho branco levemente frisante, de aromas florais e de fruta tropical, doçura discreta e um caráter "foxy" (nota animal de uva americana, do isovalerato de etila) mais suave do que a Isabel e mais agradável. A Goethe foi reconhecida como Indicação Geográfica (IG) em 2012, a primeira para vinhos de mesa com variedades híbridas no Brasil.
Moscato Embrapa e as novidades genéticas
A Embrapa Uva e Vinho, sediada em Bento Gonçalves no Rio Grande do Sul, desenvolveu ao longo de décadas um programa de melhoramento genético que produziu variedades novas adaptadas ao clima brasileiro. O Moscato Embrapa (anteriormente BRS Moscato), uva desenvolvida pela Embrapa com resistência a doenças fúngicas e aromas moscatelados delicados, já está sendo utilizada por produtores gaúchos para espumantes aromáticos de qualidade. Outras variedades Embrapa, como o BRS Cora (tinta, de alta produção), BRS Violeta e BRS Lorena (branca aromática com notas de Muscat) ampliam o portfólio de uvas adaptadas ao Brasil.
Isabel: a uva mais brasileira de todas
A Isabel (Vitis labrusca) é, em termos de volume, a uva mais plantada do Sul do Brasil. Trazida dos Estados Unidos no século XIX, ela se adaptou perfeitamente ao clima úmido da Serra Gaúcha por sua resistência a doenças. O vinho de Isabel tem a típica nota "foxy" americana, aquele aroma de geleia de uva, que divide opiniões: é a marca registrada dos sucos de uva industriais do Brasil. Em sua forma mais concentrada e vinificada com cuidado, pode produzir vinhos de mesa de caráter genuinamente brasileiro, embora diferente dos vinífera europeus em qualidade.
Niágara Rosada e Concord
Niágara Rosada (mais conhecida como uva rosada no mercado de mesa) e Concord (americana, usada principalmente em sucos e geleia) são variedades de Vitis labrusca presentes nos vinhedos gaúchos. A Niágara produz vinho simples de mesa com nota labrusca pronunciada, consumido principalmente no mercado local. A Concord é a uva principal dos sucos de uva industriais brasileiros (como o suco de uva integral que é exportado).
Variedades vindas da Itália e esquecidas
Os imigrantes italianos trouxeram ao Brasil um conjunto de variedades que praticamente desapareceram da viticultura europeia moderna mas que sobrevivem em velhas vinhas da Serra Gaúcha: Durif (Petite Sirah), Bonarda (Douce Noire), Peverella e algumas variedades dos Abruzos e do Veneto que a ampelografia brasileira ainda está catalogando. Algumas dessas variedades foram identificadas por pesquisadores da Embrapa em vinhas centenárias de colonos, representando um patrimônio genético de valor incalculável.
O futuro das uvas raras brasileiras
O movimento por vinhos de terroir e variedades locais, que transformou regiões como o País Basco (com Hondarrabi e Txacolí), as Canárias (com Listán Negro) e a Sicília (com Nerello Mascalese), pode ter um equivalente brasileiro nas próximas décadas. Algumas vinícolas da Serra Gaúcha e do Planalto Catarinense já estão pesquisando e vinificando experimentalmente variedades raras de seus vinhedos antigos. Essa busca pela identidade vitícola brasileira é um dos movimentos mais excitantes do vinho nacional.
O Brasil tem um patrimônio vitícola muito maior e mais interessante do que se imagina. Descobrir as uvas raras, preservar os vinhedos antigos e entender o que é único no vinho brasileiro é o caminho para uma identidade nacional de vinho que não precisa copiar ninguém.