O sul da Itália, historicamente chamado de Mezzogiorno, é uma das regiões vitícolas mais antigas do mundo e também uma das mais subestimadas pelo mercado. Mas nas últimas duas décadas, uvas como Primitivo, Nero d'Avola, Negroamaro e Aglianico saíram do anonimato e se tornaram alguns dos vinhos mais interessantes e de melhor custo-benefício da Itália.
Primitivo: a uva que é o Zinfandel californiano
Primitivo é a uva de Puglia (Apúlia), especialmente de Manduria e Gioia del Colle. Pesquisas de DNA revelaram que Primitivo é geneticamente idêntico ao Zinfandel californiano (e ao Tribidrag croata), criando uma história de migração de uvas fascinante entre a costa dálmata, o Sul da Itália e a Califórnia. O Primitivo di Manduria DOC produz tintos de cor intensa, altíssimo álcool (14,5 a 16%), aromas de amora, jujuba, especiaria quente e chocolate amargo. Um vinho poderoso que divide opiniões mas que tem muitos fãs apaixonados.
Nero d'Avola: o rei da Sicília
Nero d'Avola é a uva tinta mais importante da Sicília. Com seu nome (negro de Avola, cidade no sul da Sicília), já se anuncia: uva de cor intensa e personalidade marcante. Os melhores Nero d'Avola, especialmente das vinhas do Vale di Noto na Sicília Oriental (reconhecida como a subregião de maior potencial), produzem tintos de cor profunda, aromas de amora, cereja em compota, chocolate e especiaria de terreiro, com taninos firmes mas suaves e uma nota mineral de solo vulcânico do Etna. Produtores como Gulfi, COS, Planeta e Donnafugata definiram o Nero d'Avola de qualidade.
Negroamaro: o tinto de Puglia do Sul
Negroamaro, cujo nome em dialeto pugliese significa "amargo e negro", é a uva mais plantada do Salento, na ponta do "calcanhar" da bota italiana. Os Negroamaro mais conhecidos são os de Salice Salentino DOC: tintos de fruta vermelha escura, nota herbal característica, taninos firmes e boa acidez. Com alguns anos de garrafa, o Negroamaro desenvolve aromas de couro, especiaria e tabaco muito agradáveis. O Primitivo e o Negroamaro também são blendados em muitos vinhos de Puglia, criando combinações de concentração e fruta muito interessantes.
Aglianico: o Barolo do Sul
Aglianico é frequentemente chamado de "o Nebbiolo do Sul" por sua estrutura tânica, acidez elevada e potencial de envelhecimento extraordinário. Cultivada principalmente na Basilicata (Aglianico del Vulture DOC, nos solos vulcânicos do Monte Vulture) e na Campânia (Taurasi DOCG, ao sul de Nápoles), ela produz tintos de cor rubi-granada intensa, aromas de cereja negra, especiaria, pimenta preta e mineral vulcânico. Em sua juventude, o Aglianico pode ser austero e difícil; com 10 a 20 anos de garrafa, revela uma complexidade que rivaliza com Barolo e Brunello.
Harmonização
Primitivo e Negroamaro: orecchiette com ragù di braciole (o prato clássico de Puglia), carne di cavallo (carne de cavalo, tradicional na região), focaccia pugliese com burrata, massa com molho de sugo intenso. Nero d'Avola: caponata siciliana, pasta alla Norma, pesce spada al salmoriglio, arancini di riso. Aglianico: cinghiale in salmì, ragù di pecora, mozzarella in carrozza com molho de sugo concentrado. Todos esses tintos do sul têm em comum a necessidade de comida farta e saborosa: pratos leves não suportam sua potência.
As uvas tintas do Mediterrâneo sul-italiano são o continente desconhecido do vinho italiano para a maioria dos consumidores. Descobri-las é descobrir um território de sol, generosidade e caráter que as regiões mais famosas do norte raramente conseguem igualar em exuberância.